Carlão Barreto, ex-lutador, árbitro, empresário e comentarista esportivo
'MMA no Brasil precisa de trabalho sem
olhar para o umbigo ou pensar no bolso'
Da Redação do EsporteAgito
Um dos primeiros lutadores brasileiros de MMA (mistura de artes marciais, na sigla em inglês) a fazer sucesso no exterior, na época em que a modalidade ainda era chamada de “vale tudo”, Carlão Barreto é hoje uma referência neste esporte que vem ganhando popularidade no mundo inteiro, e particularmente em nosso país, em ritmo bastante acelerado. Fala-se, inclusive, que já é o terceiro esporte na preferência nacional, perdendo apenas para o futebol e o vôlei.
Neste momento em que o Ultimate Fighting Championship (UFC), o maior evento mundial de MMA aportou em nossa terra, “redescobrindo” o Brasil como promissor mercado para as artes de luta e, por consequência, intensificou a polêmica sobre “o caráter violento do esporte”, ninguém melhor que o próprio Carlão Barreto para falar, informar e esclarecer sobre a atual realidade do MMA no Brasil.
Com inteligência acima da média e o conhecimento adquirido ao longo de sua vitoriosa vivência no esporte – primeiro, como atleta de sucesso internacional, com várias conquistas em torneios disputados nos Estados Unidos, Rússia e Japão, e depois, como árbitro, produtor de eventos e dirigente esportivo – Carlão, que também é empresário, sócio-diretor da BF SHOWS e comentarista dos canais por assinatura Combate e Sportv, atendeu gentilmente ao convite feito pelo EsporteAgito e concedeu, com exclusividade, por e-mail, a entrevista que publicamos a seguir, na qual critica a falta de organização e seriedade de algumas pessoas que atualmente comandam o MMA no Brasil, afirma que os projetos para o esporte carecem de melhor qualidade e até alfineta o “todo poderoso” Dana White, presidente do UFC, dizendo que ele deveria distribuir melhor os ganhos com os atletas. E lança polêmica: “Embora o vale tudo tenha sido criado por brasileiros (os Gracie), gostem ou não o MMA atual é um esporte norte- americano”.
Como está hoje a situação do MMA nacional, em termos de infraestrutura, apoios e incentivos – governamentais e privados – para a prática da modalidade em nosso país?
- O MMA ainda é um esporte novo, precisamos trabalhar muito para a solidificação do esporte no Brasil. Falta muita coisa para atingirmos o patamar do vôlei, por exemplo, que é sem dúvida o esporte mais bem organizado do país. Precisamos de uma confederação forte e ativa, sem nomes ou sobrenomes... Quando falo isso, quero dizer que o MMA não tem dono, ele é um esporte rico, que precisa ser tratado com respeito e não com oportunismo. Vejo o diálogo entre todos os setores do esporte como a saída para um crescimento saudável. Só depois disso poderemos pleitear incentivos do governo.
Quais são as maiores dificuldades ainda enfrentadas hoje pelo MMA no Brasil?
- Organização, comprometimento e seriedade.... Muita gente quer aparecer na foto, mas poucas querem suar a camisa.
E como está estruturada a modalidade em termos de representatividade, ou seja, federações, confederação, ligas, etc?
- Pelo que sei, já tem alguns grupos montando suas federações e confederações, estou só observando para onde isso vai nos levar... Para o mesmo caminho do jiu-jitsu e caratê, que têm várias confederações e lideres? Ou conseguiremos uma unidade em prol do real crescimento do esporte? Sinceramente não sei quem apoiar, estou em uma fase de observação, vendo quem realmente quer ver o MMA nacional forte.
As empresas, de um modo geral, ainda torcem o nariz para ao patrocínio de eventos de luta ou de lutadores, individualmente, por não quererem associar sua imagem ao de um esporte tido como ‘violento’?
- Olha, isso está mudando. Falo isso com propriedade, tenho tido alguns encontros com empresários e gestores e posso assegurar que os empecilhos são outros. Faltam é bons projetos, tudo ainda é muito amador. A reclamação hoje é essa.
Embora o vale tudo, embrião do atual MMA, tenha sido criado por brasileiros (a família Gracie) há mais de três décadas, somente agora o esporte ganha popularidade no Brasil e começa, por isso mesmo, a conquistar mais espaço na grande mídia. Na sua opinião, o que levou o público brasileiro a, de uma hora para outra, “descobrir” e se encantar por essa modalidade esportiva?
- Com certeza o sucesso dos atletas brasileiros e a força de marketing que o UFC tem. Brasileiro só gosta de esporte onde ele tem vencedores. No MMA temos vários, então.... Tudo fica mais fácil. Outra coisa: sem dúvida que a família Gracie e seus alunos foram responsáveis pela criação do vale tudo, só que houve uma evolução, conceitos mudaram... Os americanos reinventaram o esporte, quer gostem ou não o MMA atual é um esporte norte- americano.
Que vantagens você vê no MMA em relação aos outros esportes de luta, não apenas sob o aspecto competitivo mas também do ponto de vista físico para quem o pratica?
- Primeiro, quero dizer que qualquer luta pode ser usada no MMA, ou seja, você pode pegar um chute da capoeira, uma queda do judô, uma combinação de socos e chutes do muay thai. Costumo dizer que o MMA é o triatlo das artes de combate, por isso, necessita-se de muito estudo tanto da questão física, como técnica. Já houve uma grande evolução. Quando eu lutava o treinamento era muito intuitivo, hoje em dia muita coisa mudou. O atleta tem que ser ágil como um boxer, forte como um wrestler e hábil como um lutador de jiu-jitsu. Parece fácil, né? Já temos muitos doutores na educação física estudando isso... MMA é igual a evolução constante!
De olho em nosso mercado promissor, o presidente do UFC, Dana White, já declarou que o maior evento mundial da modalidade chegou ao Brasil para ficar. Isto, na sua opinião, é 100% bom para o MMA nacional ou você enxerga algum ponto negativo ou que mereça maior reflexão?
- Isso é um pouco complexo, teria que dissertar mais sobre o assunto. Como não quero ser superficial em minha resposta, apenas digo que é muito importante que o Brasil, que tem dois donos de cinturão (Anderson Silva e José Aldo) e pelo menos uns três atletas com possibilidades reais de title shot esteja no circuito do UFC... Quantos aos benefícios para os eventos nacionais, isso obriga os eventos a melhorarem consideravelmente suas estruturas... Mas, como disse antes, precisaria de mais tempo para desenvolver esse tema...
Você acredita que, com a crescente profissionalização da modalidade, daqui a alguns anos o MMA estará rivalizando com o futebol no desejo do jovem brasileiro pobre que sonha em viver do esporte e ganhar fama e riqueza com ele?
- Será mais uma oportunidade, sem dúvida, mas o futebol dificilmente perderá esse status. Sabe de uma coisa? Queria que a escola no Brasil fosse bem estruturada, tivesse incentivo financeiro, assim o jovem teria uma boa formação e o esporte seria mais uma opção e não a única saída.
Você compartilha da opinião de alguns – inclusive o Dana White – que o sucesso do MMA em todo o mundo fará, em pouco tempo, o boxe deixar de existir como esporte profissional? Não há espaço para a coexistência das duas modalidades?
- Acho que o Dana fala isso devido aos interesses financeiros envolvidos entre esses esportes nos EUA. O boxe e o MMA podem e devem coexistir em harmonia. Ficam inventando e alimentando essa rivalidade e, sinceramente, acho isso uma bobagem... O Dana tinha que distribuir melhor seus ganhos entre os atletas, isso sim merece uma boa discussão.
Pelo que se tem notícia, até hoje a prática do MMA se concentra nas academias de artes marciais e nas comunidades mais pobres, através de projetos sociais. Você já vislumbra um cenário em que a modalidade ganhe também as escolas e os clubes e, num horizonte mais longo, possa a vir a ser um esporte olímpico?
- Tudo depende de como e quando vamos organizar o MMA. Precisamos estudar outros esportes, aprender como se faz e levar esses cases de sucesso para dentro do MMA no Brasil. O modelo esportivo americano por enquanto não serve como parâmetro, temos que conversar com o pessoal do vôlei, do judô, da natação, sobre gestão esportiva. Não adianta nariz em pé, temos que aprender dentro da realidade da nossa legislação esportiva. Quer ver uma coisa?! Temos eventos amadores? Sim, mas feitos de forma desordenada e isolada. O esporte amador é a base de qualquer esporte..... Tudo depende da vontade de trabalhar, sem olhar para o umbigo ou pensar no bolso.
Atualmente, Anderson Silva, Lyoto Machida, Shogun, José Aldo e Vitor Belfort são ídolos mundiais e estão no topo das suas categorias. Mas, quem são no momento os lutadores brasileiros da nova geração em quem você apostaria no sucesso?
- Veja bem, não me sinto à vontade em apontar alguns nomes, pois vejo tantos meninos com talento, tanta gente boa Brasil afora, gente com um cartel bom, com sangue nos olhos, que ficaria chato eu falar uns 10 nomes e os outros 20, 30 futuros campeões que estão a espera de um bom empresário, de uma oportunidade? O Brasil é um celeiro de talentos! É lógico que tem lutadores que estão mais próximos de brilhar como o Erik Silva, Renan Barão, Edson Jr e o Charles do Bronx por exemplo, mas tem muita gente boa por aí só esperando a porta do octógono abrir...rsrsrs
Além de árbitro internacional e comentarista do canal Combate e do Sportv, você é empresário e promotor de eventos. Quais são os projetos que você está desenvolvendo no momento e o que já pode adiantar para nós sobre futuros planos dentro do MMA?
- Sempre estou pensando em algo novo, sou uma pessoa que ama trabalhar, tenho prazer em fazer reuniões, desenvolver projetos, auxiliar quem deseja entrar neste mercado. Graças a Deus tive oportunidade de trabalhar em diversas frentes deste esporte, isso me proporcionou uma visão privilegiada deste mercado. Meu foco hoje está voltado para a questão educacional, desenvolvimento de cursos de aperfeiçoamento dos profissionais envolvidos no MMA. Tenho uma empresa, a BFShows Fighting Events e no próximo ano estaremos apresentando uma série de projetos que serão de grande valia para nosso esporte.... Sem prepotência, por favor!!! Lembrando que eu não faço nada sozinho, tenho boas parcerias, tem muita gente boa olhando para nosso esporte, além da minha esposa, que vem investindo muito do seu tempo em prol de um sonho, que é sermos referência em organização, produção e formação dentro dos esportes de combate.... O céu é o limite!
Um abraço a todos os leitores do ESPORTEAGITO. Fiquem com Deus e mantenham o foco!